O desafio de trabalhar com o conhecimento em constante transformação

Mestre e doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) — onde hoje é professor titular — e presidente da instituição não-governamental Instituto Ciência Hoje, o pesquisador Renato Lessa se descreve não como um cientista na acepção restrita do termo, mas — em suas próprias palavras de filósofo político — como um intelectual inquieto em relação ao mundo em que vive. Porque tem crenças, imagina que a sociedade pode sempre ser diferente do que é. Em entrevista para o Globo Universidade, Lessa descreve sua trajetória acadêmica e fala sobre seus projetos atuais.

GU – Como se deu a sua escolha pelo estudo da política?
Renato Lessa – Minha trajetória acadêmica foi se constituindo, um tanto desordenadamente, ao longo do caminho. Não foi planejada, não foi concebida como uma sucessão de estágios que conduzissem ao ponto atual, às questões com as quais trabalho no momento. Graduei-me em Ciências Sociais, depois de ter cursado meio curso de História. Fiz mestrado e doutorado em Ciência Política, e, em paralelo à educação formal, sempre tive uma trajetória informal autodidata, vinculada a outras atividades. Estudei Literatura, Filosofia, Arte, História da Arte. Tudo isso reflete no trabalho que faço hoje. Sempre tive um interesse muito grande por história judaica, pelos estudos sobre o Holocausto, o extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra. Enfim, mesmo sem plano, projeto, com freqüência o conhecimento que acumulamos ao longo do tempo se sedimenta e configura nossa formação intelectual.

GU – E quanto à filosofia política? Como é trabalhar com este campo?
RL – Não me considero um cientista, no sentido de um sujeito que trabalha com laboratórios e experimentos, que pertence a uma disciplina e a uma ciência claramente constituída. Meu trabalho é mais o de um intelectual, que dá aulas, escreve ensaios, e tem uma preocupação muito grande em intervir e estar presente no debate a respeito de questões de natureza pública. Hoje me volto para questões relacionadas à filosofia política, e minha preocupação fundamental tem sido trabalhar com o pensamento filosófico, no sentido de ver como as questões de natureza política vêm sendo pensadas desde a tradição clássica até hoje. A suposição básica é de que a política é uma atividade muito antiga dos seres humanos. Foi descoberta e inventada simultaneamente ao desenvolvimento do pensamento político, pelo próprio pensamento que a inventa e que nela está presente. Ao contrário das ciências físicas e naturais, nas quais há grande acumulação cognitiva — hoje sabemos mais Biologia do que sabíamos há dez anos; sabemos mais Física do que sabíamos há três anos — a idéia de cumulatividade nas ciências humanas e, particularmente, na filosofia política, é, no mínimo, relativa. Não podemos dizer que hoje “sabemos mais” do que os antigos pensadores gregos, por exemplo. Continuamos a discutir a respeito da melhor forma de organizar a sociedade, de definir critérios de justiça e de participação política, de produzir e de controlar o poder dos governantes etc.

GU – A opção por trabalhar com a política se deu justamente no período da ditadura. Houve dificuldades nesse percurso?
RL – Minha geração foi muito afetada pela ditadura. Paradoxalmente, essa dificuldade nos atraía. Havia uma militância política forte. Embora não houvesse liberdade, a política nos interessava. Corremos riscos em função desse interesse por questões de natureza pública. Voltamos os olhos para isso, sobre as possibilidades de transformação do mundo social. Essas questões sempre estiveram presentes e foram importantes naquilo que acabou por ser minha escolha profissional. Todas as pessoas da minha geração que se interessaram por filosofia política tiveram essa experiência de restrição da liberdade e de necessidade de reconquistá-la. A marca principal que isso nos deixou, creio, é a de pensar a política não apenas como ela é, mas como pode e deve ser.

GU – Suas experiências no exterior, especificamente durante os três pós-doutorados, foram representativas de que forma na sua carreira?
RL – Como eu disse antes, minha carreira não foi nada planejada. Em 1994, tive a oportunidade de passar um tempo nos Estados Unidos, em um programa do próprio governo americano, na área dos chamados American Studies. Interessava-me, particularmente, a filosofia política dos fundadores daquele país: James Madison e Thomas Jefferson, entre outros. Em 2004, em Portugal, dediquei-me à filosofia de Michel de Montaigne, pensador francês do século XVI — uma antiga obsessão minha —, na linha de meus estudos sobre a filosofia cética. Em 2005, por fim, estive na École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França, como diretor de estudos no Centro de Teoria e História da Arte, onde desenvolvi trabalho sobre o Holocausto e sobre a importância da arte contemporânea como veículo essencial para exprimir experiências de dor humana.

GU – Como se dá seu trabalho no Iuperj?
RL – O Iuperj é um instituto de pós-graduação, pertencente à Universidade Candido Mendes, nas áreas de Ciência Política e Sociologia. São dois mestrados e dois doutorados: quatro cursos ao todo. Além do ensino, a casa prima pelas atividades de pesquisa também nessas duas áreas. Na Ciência Política, há pesquisas mais empíricas e mais factuais. Tenho me concentrado na área do pensamento político, em questões mais ligadas à filosofia e menos práticas ou imediatas. No dia-a-dia, ensino filosofia política clássica e moderna, basicamente dos gregos até o século XVIII. Trabalho também com o tema do Holocausto — sua relação com a filosofia política e a moral contemporânea — e com temas filosóficos ligados ao ceticismo. Nesse caso, a idéia é estudar as diferentes filosofias políticas e as suas pretensões de conhecimento e de configuração da vida social. Além disso, em um namoro por mim jamais rompido com a área de História, escrevi sobre a República brasileira. Interesso-me, ainda, pela área de representação política, no campo teórico e histórico. Também sempre fui atento aos temas da violência e da segurança pública. Em 2005, coordenei um projeto chamado Arquitetura Institucional do Sistema Único de Segurança Pública, com uma equipe interdisciplinar de cerca de 50 pesquisadores. Trata-se de um tema da maior importância e que diz respeito à qualidade da democracia no Brasil.

GU – Alguma publicação em vista?
RL – São várias. Estou trabalhando em um livro sobre o ceticismo moderno. Interesso-me por investigar como é que o ceticismo moderno, uma corrente filosófica da modernidade, criou uma filosofia política própria. Isso, por meio de uma análise de autores que vão do Renascimento até o século XVIII, sobretudo Michel de Montaigne (XVI), Pierre Bayle (XVII) e um escocês chamado David Hume (XVIII), todos filósofos de extrema originalidade. Este é um livro que está quase pronto, e deve ter como título Ceticismo em Movimento. Outro projeto que desenvolvo trata da literatura dos sobreviventes dos campos de extermínio nazistas. Meu livro mais recente, Presidencialismo de Animação: ensaios sobre a política brasileira, de 2006, reuniu ensaios e artigos que escrevi ao longo do tempo, desde 1992, 1993 até 2006. A maior parte acompanha a política brasileira. Trata-se, na verdade, de um conjunto de exercícios filosóficos de observação da política. Não são ensaios jornalísticos, no sentido de cobrir uma certa temática. São ensaios interpretativos, têm uma carga de informações jornalísticas, mas possuem um lado interpretativo muito forte. Chamo de ensaios de filosofia pública, a filosofia se ocupando de questões públicas, políticas. Abrange desde o fim do governo Collor até a crise do mensalão, no governo Lula.

GU – Está envolvido com algum outro projeto?
RL – Uma área de trabalho que me dá imensa satisfação diz respeito à divulgação científica, atividade que desenvolvo como presidente do Instituto Ciência Hoje. Na minha área, trata-se de um desafio a ser vencido: o de desenvolver uma atenção especial à democratização do conhecimento. Isso exige que deixemos de falar em linguagem cifrada para nossos pares e que incorporemos novos interlocutores. Uma das preocupações centrais da filosofia política é a de contribuir para a qualificação dos cidadãos. Meus projetos de pesquisa, assim como de um conjunto de pesquisadores que coordeno, estão organizados em um núcleo do Iuperj, denominado Laboratório de Estudos Hum(e)anos [www.estudoshumeanos.com].

GU – Como é o desafio de tentar compreender a política na atualidade, no momento em que ela ocorre, como no caso desse livro com ensaios sobre questões públicas recentes?
RL – As dificuldades existem porque a política é uma atividade dinâmica, movediça. Duas coisas são fundamentais para superá-las: a atenção, muita atenção; e a convicção de que é impossível ter certeza das coisas, em uma prudente atitude de falibilidade. Em conseqüência, é preciso ter a coragem de registrar as coisas e não se furtar a emitir juízos, opiniões, avaliações. É uma área de estudos que não abriga a idéia do conhecimento exato, como em outras disciplinas. Na Física, na Biologia, o objeto é exterior a você, as crenças não interferem tanto no seu trabalho. Uma molécula é uma molécula… Mas, na observação de uma sociedade, nós somos parte constitutiva — tal afastamento é humanamente impossível. O que procuro fazer é ter imensa atenção ao que acontece, às diferentes versões presentes no mundo, às vozes, como uma maneira de introduzir minha própria voz. Entretanto, eu já sei, de antemão, que minha voz é humana, passível de erro, falível. Sou um sujeito que escreve ensaios: eu tento e arrisco. Acho que esse é o limite do que podemos fazer em algumas áreas das ciências humanas, principalmente dessa área, que é a filosofia política. Tecemos hipóteses, fomentamos dúvidas, temos em mente que nem tudo o que parece estar esclarecido de fato está. Devemos introduzir uma semente de dúvida, mais do que explicar ou tentar definir. Os modelos não se repetem. A história é capaz de pregar certas peças: quando supomos que certas coisas não existem mais, elas voltam. Existe sempre uma surpresa. Há uma máxima do escritor irlandês Samuel Beckett que bem se aplica a isso que eu disse. É algo assim: “Tentar. Falhar. Tentar de novo. Falhar de novo. Falhar melhor”.

GU – Qual seria a diferença entre o filósofo político e o cientista político?
RL – É importante chamar a atenção para essa diferença de ordem intelectual. A ciência política é uma importante tentativa de registrar e compreender a vida política tal como ela existe. É, nesse sentido, uma ciência recente, que se desenvolveu a partir dos anos 50 do século passado. A filosofia política é uma antiga tradição, constituída por pensadores que, além de se ocuparem de questões de seu tempo, tiveram como característica principal a invenção de modelos de vida social. Assim como, por exemplo, aceitamos a idéia de que Benjamin Franklin inventou o pára-raios, é importante saber que filósofos políticos, ao longo da história, foram também inventores. Várias das instituições e dos princípios legais presentes em nossa sociedade resultam dessas invenções: direitos individuais, direitos sociais, partidos políticos, representação política, separação entre os poderes — para citarmos apenas alguns exemplos. Em uma outra chave, quem trabalha com filosofia política está insatisfeito com o mundo em que ele vive, porque ele tem crenças, imagina que a sociedade pode ser diferente do que ela é. Essa crença na diferença entre o que é e o que pode ser o distingue do cientista político, que observa, sem considerar sua opinião pessoal sobre como as coisas deveriam ser. É um campo muito difícil, porque exige uma formação multidisciplinar: reúne Filosofia, Política, História, Literatura, História da Arte. Uma formação que leva uma vida inteira, não tem um diploma e nunca está pronta, pois seu universo nunca se esgota.

Referências bibliográficas:

LESSA, Renato. Presidencialismo de Animação: ensaios sobre a política brasileira, 1993-2006. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2006.

LESSA, Renato. Agonia, Aposta e Ceticismo: ensaios de filosofia política. Belo Horizonte: Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, 2003.

LESSA, Renato. A Invenção Republicana: Campos Sales, as Bases e a Decadência da Primeira República Brasileira. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999.

LESSA, Renato. Veneno Pirronico: Ensaios sobre o Ceticismo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1997.

LESSA, Renato; RODRIGUES, L. M.; VASCONCELLOS, G. F.; SANTOS, Wanderley Guilherme dos . Em Defesa do Presidencialismo. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1993.

LESSA, Renato; LINHARES, L. Consenso e Identidade: os advogados e a sua ordem. Rio de Janeiro: Ordem dos Advogados do Brasil-RJ, 1991.

LESSA, Renato; DINIZ, Eli; BOSCHI, Renato. Modernização e Consolidação Democrática no Brasil. São Paulo: Vértice, 1987.