Hume e Spinoza, dois ensaios
visNaturalismo em Spinoza e Hume, por Bernardo Bianchi
Muito freqüentemente, levados por argumentações convincentes, submetemos nossos juízos à autoridade de terceiros e ignoramos certas relações filosóficas que, de outro modo, se nos afigurariam como algo auto-evidentes. Acostumados a cavar trincheiras, não percebemos os armistícios e mesmo as alianças intelectuais que se insinuam na filosofia. Desse modo, assaltados pela carga semântica de categorias tais como racionalismo e empirismo, alvoroçamo-nos em arrumar os campos antagônicos e a escolher nosso lado nesta espécie de grande disputa filosófica. Mas raramente as grandes palavras servem para algo verdadeiramente útil.
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Da instituição de pontes, por Cesar Kiraly
Por certo, a ponte Hegel-Spinoza é distinta da Spinoza-Hegel, bem como, Hume-Spinoza é distinta da Spinoza-Hume. Spinoza-Hume é uma ponte possível, mas ilógica. O efeito de Hume-Spinoza é similar ao efeito Spinoza-Hegel, qual seja levar dimensão de fragmento, a uma península de absolutos. Uma ponte serve para levar senão pedaços. Esta percepção nos mostra que construir pontes entre filosofias não é a mesma coisa do que demonstrar, dentre elas, influências. As influências, inclusive, são pouco filosóficas, mas bastante históricas. Para se determinar uma influência é preciso realizar alguma sorte de trabalho detetivesco. É preciso mostrar alguma citação direta ou indireta, encontrar um livro anotado do influenciador na biblioteca do influenciado, estabelecer relações entre um professor influenciador de um influenciado com os argumentos do influenciado de segunda geração etc. Como em toda tentativa de demonstração de fidelidade ou infidelidade, a prova nunca chega. Ou seja, salvo quando não existe influência direta, por impossibilidade do tempo, da geografia, é simples estabelecer relações de influência, porque nelas toda prova é acidente: e pensar pela fidelidade ou infidelidade produz um pensamento de razões próprias. Mas isso não significa que, filosoficamente, a despeito de serem encontradas provas da influência não possamos construir pontes.
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Março 22nd, 2010 at 10:48 pm
Neste mundo louco onde a cultura está referenciada em papeis de chicletes, conduzir graduando dos cursos de licenciaturas nos debates dos articulistas é algo supremo.Perguntas do tipo: o que é carga semântica? Ou a fidelidade mencionada por Kiraly, é a mesma infidelidade relacionada aos casos conjugais? Spinoza não foi um técnico de futebol? Brincadeiras a parte, já temos dicionários que não explicam as palavras criadas nos guetos e popularizadas nos jornais. Foi um passeio maravilhoso navegar no texto disponibilizado pelos articulistas, e navegar com nossos alunos pelos esconderijos encravados nas palavras que para muitos não tinha nenhuma coerência ou significado. Associar-me ao professor de literatura que viu nos artigos a oportunidade de incentivar os acadêmicos a pesquisar mais ou ler melhor, oxigenou a nossa condição docente. Estou fincado neste espaço de leitura como um lavrador, colhendo os bons frutos dos artigos que valorizam a boa escrita. Sei que milhares de alunos para entender um paragrafo ali disponibilizado precisarão de apoio dos seus professores.Mas, também sei, que muitos professores vão precisar de apoio para entender o significado das filosofias apresentadas enquanto paradigmas da construção de novos saberes. De fato, precisamos nos encontrar nessas cavernas úmidas e escura da negligência intelectual. Precisamos sair do seu fundo em grupos.Quem está conduzindo a luz do conhecimento, que vá na frente, e quem conhece os segredos dos seus labirintos que conte os passos até a luz do sol.