Mutações: a condição humana
MUTAÇÕES : A CONDIÇÃO HUMANA
Curadoria ADAUTO NOVAES
Rio De Janeiro | Belo Horizonte | São Paulo | Brasília |
1 de setembro a 17 de outubro de 2008
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CURSO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA RECONHECIDO PELO FÓRUM DE CIÊNCIA E CULTURA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO E PELA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
As conferências do Rio de Janeiro serão transmitidas ao vivo pela internet www.academia.org.br
Inscrições a partir de 18 de agosto Rio de Janeiro | ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS - TEATRO RAIMUNDO MAGALHÃES JÚNIOR Av. presidente Wilson, 203 | Centro
Informações e inscrições: ABL (21)3974-2559 das 12h às 18h | www.academia.org.br Conferências segundas, terças e quartas às 19h
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Durante a realização do ciclo de conferências Mutações – Novas Configurações do Mundo (2007), uma questão se impôs: “O que é humano?” A pergunta é, certamente, provocada por uma verdadeira revolução antropológica — revolução tecnocientífica — que, segundo alguns pensadores, tende a levar a uma “desqualificação definitiva” do homem. São múltiplos os caminhos que se abrem para responder à questão, mas, o que nos interessa neste novo ciclo pode ser resumido na seguinte pergunta: “o que é o homem no mundo?”
Os antigos faziam da cidade a condição de uma vida plenamente humana. A famosa frase “O homem é um animal político por natureza” quer dizer, entre tantas interpretações, que o homem, dotado de uma linguagem articulada — o logos — tem a capacidade de fundar comunidades onde são definidos o justo e o injusto, o legal e o ilegal, os vícios e as virtudes. Humanistas e pensadores políticos do Renascimento retomam a definição do homem como um ser essencialmente político cuja natureza humana só se realiza na participação ativa da vida pública. Já em nosso tempo uma das perguntas básicas é: o que é feito da condição humana em um mundo que dedica uma reverência religiosa à mercadoria como algo que exerce uma potência sobrenatural sobre o homem? Mais: com o grande avanço da biotecnologia e da tecnociência, outro problema se apresenta. A antropologia sempre nos disse que, apesar das diferenças, pode-se afirmar que todos os homens são iguais, o que nos permite ver o mundo com menos estranhamento, menos radicalmente diferente de nós mesmos. Contudo, o que dizer diante das promessas — realidade para muitos — de novos seres criados em laboratório, os cyborgs, os híbridos biotrônicos, a inteligência artificial equiparada à dos humanos, em síntese, diante de transhumanos?
Com o advento da revolução tecnocientífica, esta noção ganhou outros contornos sem que o homem se dê conta da mutação: “de repente, viramos e o mundo inteiro mudou de rosto”, escreve Péguy, que nos induz a pensar que entramos no novo mundo de costas. Quando conseguimos virar a cabeça defrontamos com um rosto tão desconhecido pelas inúmeras e impressionantes mudanças que tudo se mostra quase impenetrável, tornando difícil discernir qualquer imagem do humano. Assim, qual o lugar do homem na nova configuração do mundo, estruturada em uma cosmologia relativista e uma micro física quântica?
Cientistas e pensadores identificam três áreas que afetam de maneira radical a natureza humana: a hipercomputação, a biotecnologia e a neurociência. Mas suspeitamos que nosso maior problema hoje esta no descompasso da relação entre ciência e pensamento. Ou, para usar os termos de Merleau-Ponty, no surgimento da rivalidade entre o conhecimento científico e o saber metafísico, entendendo por metafísico “não a construção de conceitos através dos quais tentaríamos tornar menos sensíveis nossos paradoxos”, mas como a experiência de todas as situações da história pessoal e coletiva, “e de todas as ações que, assumindo-as, as transformem em razão”. Então é momento de também se indagar: haveria ainda espaço para a política hoje, entendendo por política não apenas a criação de direitos, mas também projetos e ideais abstratos? Não estaríamos vivendo um momento no qual estes ideais “transcendentes” são esquecidos em troca dos “fatos” e dos objetos técnicos?
Pensar a civilização tecnocientífica significa pensar a nova condição humana, aquilo que nos lança em direção a nós e contra nós — pôr em discussão não apenas as necessidades artificiais, mas também a origem dos problemas criados pelo próprio espírito. Seremos obrigados a pensar contra nosso próprio espírito?
Outro eixo de interesse deste ciclo de conferências pretende mostrar a visão trágica do humano. Ao partir da afirmação de que o homem é estruturalmente ambivalente e originariamente desumano, “mistura abominável de volúpia e crueldade”, pode-se dizer que a tecnociência teria o papel de potencializar a barbárie. Mas a pergunta que se deve fazer antes de tudo é: há algo de estruturalmente inumano no humano? Ou, acompanhando Nietzsche, aquilo que se tem por inumano não seria o próprio “solo fecundo de onde pode surgir certa humanidade sob a forma tanto de emoções quanto de ações e obras?” Ou seja, ainda e sempre a grande indagação: o que é “humano” hoje?
Paul Valéry escreve que é preciso interessar os espíritos pelo destino do Espírito. Por “espiritual” ele designa tudo o que é ciência, arte e filosofia, dizendo que a relação do homem com o mundo hoje mostra com clareza que verdades estão quase mortas, valores em baixa, ruínas de esperanças e crenças, e principalmente ruína da confiança no espírito, confiança esta que era o fundamento da vida. E resume tal visão trágica: “as civilizações são tão mortais como qualquer ser vivo, não sendo mais estranho pensar que a nossa possa desaparecer com seus procedimentos, suas obras de arte, sua filosofia, seus monumentos, assim como desapareceram tantas civilizações desde as origens — como desaparece um grande navio que afunda”. Outros pensadores — como Spengler, Kraus, Musil, Wittgenstein e Heidegger — caminham no mesmo sentido, desenvolvendo forte crítica da civilização dominada pela ciência e pela técnica. Todas essas idéias serão desenvolvidas ao longo do ciclo.
Por último, é importante citar a impressionante precisão com que Hannah Arendt examina os possíveis caminhos da humanidade na direção do que hoje já se convencionou chamar de realidade “pós-humana”: “É possível que nós, criaturas terrestres que começamos a agir como habitantes do universo, não sejamos mais capazes de compreender, ou seja, de pensar e de exprimir as coisas que, no entanto, somos capazes de fazer. Nesse caso, tudo se passaria como se nosso cérebro, que constitui a condição material, física de nossos pensamentos, não pudesse mais acompanhar o que fazemos, de modo que doravante teríamos realmente necessidade de máquinas para pensar e para falar em nosso lugar”. (Adauto Novaes)
AS QUATRO CONCEPÇÕES DO HOMEM | FRANCIS WOLFF Para responder à questão “que é o homem?” torna-se necessário refletir sobre quatro grandes períodos da história do pensamento, retirando deles quatro concepções fundamentais. A primeira busca definir o homem por sua “essência” fixa e eterna, e domina o pensamento antigo e medieval. Na era clássica, tal concepção será criticada por Descartes. As concepções mais modernas podem ser lidas como duas respostas ao cartesianismo clássico ou ao essencial ismo antigo.
Francis Wolff é professor de filosofia da Universidade de Paris X.
A INVENÇÃO DO PÓS-HUMANO | FRANKLIN LEOPOLDO E SILVA Para que a impossibilidade de dominar o movimento e a mudança de tudo não nos angustie, empenhamo-nos em tentativas de traduzir a contínua transformação inerente ao processo de existir em uma vida realizada. Contudo, percebemos que os movimentos que instabilizam sem cessar nossa subjetividade são provocados por poderes invisíveis, anônimos, sem densidade suficiente para que pudéssemos enfrentá-los. Nesse cenário difícil, a condição humana mostra sua heteronímia ética, sua desintegração política, sua alienação histórica e sua fragmentação subjetiva.
Franklin Leopoldo e Silva é professor de filosofia da USP.
O QUE MANTÉM UM HOMEM VIVO? (II): NOVOS DEVANEIOS SOBRE ALGUMAS TRANSFIGURAÇÕES DO HUMANO | RENATO LESSA Para pensar as possibilidades políticas dentro da lógica, um tanto ilógica, das mutações, parece não haver metáfora mais pertinente do que a do naufrágio e, por conseguinte, da navegação. Ambas tão antigas quanto a linguagem; ambas que não param de ecoar até hoje, no pensamento de um Hans Blumenberg por exemplo. Há que se descobrir, hoje, costas e ilhas, portos e alto-mar, velas e lemes, faróis e pilotos…
Renato Lessa é filósofo e professor de teoria política do Iuperj e da UFF.
A CONTIGÊNCIA DO NOVO | NEWTON BIGNOTTO Em 1958, Hannah Arendt publicou aquela que seria uma das obras mais importantes da filosofia política de nosso tempo: A condição humana. Nossa preocupação na conferência não será a de recuperar toda a complexidade do pensamento arendtiano, mas refletir sobre a maneira como as constantes inovações das ciências e da técnica alteram nossa compreensão do humano e destroem certezas arraigadas em nossa cultura. Para Arendt a condição humana se define por sua existência na história. Isso implica em dizer que não podemos nos recusar a identificar as mutações de nossa época, em nome de uma concepção do humano definido somente por suas características inatas.
Newton Bignotto é professor de filosofia da UFMG.
DO ANTI-HUMANISMO AO PÓS-HUMANISMO: PODE-SE AINDA DEFENDER O HUMANISMO? | JEAN-PIERRE DUPUY Os trans-humanistas consideram ter por missão, graças às tecnologias de ponta, concluir a próxima passagem da evolução biológica: a da espécie humana para as máquinas cibernéticas inteligentes e conscientes, que reinarão sobre o mundo. Uma vez que o homem pode se fazer criador de existências independentes, seria essa utopia o fim do humanismo ou sua apoteose?
Jean-Pierre Dupuy é professor de filosofia na Escola Politécnica de Paris e na Universidade de Stanford.
IDENTIDADES IRRECONHECÍVEIS | OSWALDO GIACOIA A conferência discutirá o pensamento foucaultiano, que em meados da década de 1960 registrava a datação recente do aparecimento do “homem” como problema colocado para o saber. Dizia então Foucault que “o homem é uma invenção da qual a arqueologia de nosso pensamento mostra facilmente a data recente. E talvez o fim próximo.” Em seus últimos cursos no Collège de France, Foucault experimenta novas reflexões sobre o governo dos vivos, sobre o exercício da política em termos da direção das condutas, retornando aos primeiros anos da era cristã e às práticas ascéticas como tecnologias de si próprio.
Oswaldo Giacoia é professor de filosofia da Unicamp.
MARX E A CONDIÇÃO HUMANA | FRANCISCO DE OLIVEIRA O materialismo marxista construiu sobre o trabalho o fundamento do humano. Ou seja: o homem de Marx é, antes de tudo, o produto de sua força, em busca da reprodução. Com o fim das utopias, a desqualificação do trabalho e uma época em que o produtor é subjugado pelo seu produto, imperativo e indomável, a pergunta, dentro dos termos mais marxistas, é: o que será a condição humana?
Francisco de Oliveira é professor de sociologia da USP.
SOBRE A POTÊNCIA POLÍTICA DO INUMANO: RETORNAR À CRÍTICA AO HUMANISMO | VLADIMIR SAFATLE É cada vez mais aceito certo diagnóstico de época que determina o presente como era do esgotamento da “humanidade” do homem, ou seja, esgotamento dos atributos que o projeto filosófico da modernidade forjou para definir o “humano”: autonomia reflexiva, autodeterminação, imputabilidade moral e individualidade singular. Em vez de buscar a atualização de regimes de humanismos, buscaremos mostrar como a modernidade foi também o espaço das experiências de confrontação com o inumano.
Vladimir Safatle é professor de filosofia da USP.
O NÃO-LUGAR DO HUMANO | JOÃO CAMILLO PENNA É exatamente quando se está perdido em meio a mutações que as utopias, como direções em um mapa, tornam-se necessárias. Na falta delas, hoje, cabe, então, procurar saber o que são; historiá-las. Por ora, pode-se adiantar que uma utopia é o que se dilui assim que se torna projeto; é, portanto, como indica a etimologia da palavra, um nãolugar. De Thomas Morus, claro, até maio de 1968, muitos serão os autores abordados. João Camillo Penna é professor de Literatura Comparada e Teoria Literária da UFRJ.
HOMO CIVILIS (OU HOMO SAPIENS 2.0) | LUIZ ALBERTO OLIVEIRA Se a teoria da seleção natural de Darwin tratou de associar o desenvolvimento dos seres vivos a uma dupla contingência: a deriva dos caracteres genéticos e a adaptação ao âmbito bio-ecológico, a civilização técnica, hoje em seu auge, aponta para uma espécie de nova evolução, não-natural, decorrente da manipulação de células, órgão e organismos e da fusão do carbono com o silício.
Luiz Alberto Oliveira é doutor em cosmologia e pesquisador do Icra e do CBPF.
O CONTROLE DE SI: EM DIREÇÃO A UM HOMEM NOVO? | JOËLLE PROUST A observação de estudos que associam sistemas corticais animais e humanos a sistemas artificiais levantam a hipótese de um ser humano modificado em sua profundidade. Não apenas no que concerne à ampliação do controle de seu entorno, como também a atribuições como auto-avaliação, inibição e reflexão sobre valores que presidem escolhas individuais e coletivas.
Joëlle Proust é filósofa associada ao Institut Jean-Nicod - École Normale Supérieure (Paris).
SOBRE AS SOBRE AS TESES DA MORTE DO HOMEM, DO FIM DO SUJEITO E DO ESGOTAMENTO DA FILOSOFIA | ANTONIO CICERO Na esteira dos muitos arautos da morte do homem na modernidade, Foucault vai dizer que Nietzsche, tendo constatado a morte de Deus, mostrou que a ela não correspondia o aparecimento, mas o desaparecimento do homem. Se de um lado tomar “o homem” como um universal consiste em atribuir uma mesma essência a todos os homens, argumenta-se que se trata de um artifício através do qual as classes dominantes do Ocidente têm racionalizado seu imperialismo econômico e sua imposição etnocentrista. Por outro lado, considera-se também que tal “morte do homem” corresponde ao fim da “metafísica moderna”, segundo o pensamento heideggeriano. Por último, será examinada a questão de que os progressos da biotecnologia vêm conferindo uma nova e grave dimensão ao problema, pois permitem contemplar a eventual mutação da própria espécie humana.
Antonio Cicero é poeta e filósofo
NÓS, AS CIVILIZAÇÕES, SABEMOS QUE SOMOS MORTAIS | SÉRGIO PAULO ROUANET O título da conferência é a primeira frase do ensaio “A crise do espírito”, de Paul Valéry, publicado em 1919. Nele Valéry vai combinar duas perspectivas, a particularista e a universalista. Particularista quando toma como eixo as civilizações e universalista em sua crítica da modernidade. Essa dialética do particular e do universal foi aplicada por Valéry para pensar a crise de certezas e paradigmas que se deu depois da Primeira Guerra Mundial. Na conferência tal dialética será aplicada para pensar a crise que se deu a partir do fim da guerra fria, num mundo que se confronta com uma rejeição radical da modernidade e que vive os dois desafios gêmeos da globalização e da fragmentação.
Sérgio Paulo Rouanet é diplomata e doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo.
AQUILO DE QUE O HUMANO É INSTRUMENTO – DESCARTÁVEL | EUGÊNIO BUCCI Estaria o discurso genético refundindo a metafísica ou, ao menos, estabelecendo outra metafísica: a genética? Há indícios disso. O comportamento humano, ultimamente, já não se explica mais pela divina providência ou pela determinação do meio, pelo espírito ou pelo que materialismo: ele se deixa escrutinar pelos cromossomos, desde a infidelidade conjugal até o fenômeno social.
Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP.
DELICADEZA | MARIA RITA KEHL Por não ser a delicadeza algo inerente ao homem, precisamos tanto dela. É mais fácil encontrar alguma delicadeza espontânea entre os animais. A indelicadeza é própria do humano. O homem criou e expandiu um sem número de artefatos de morte; o homem valoriza e aperfeiçoa infinitos recursos para exibir sua suposta superioridade sobre os semelhantes, ferindo continuamente o frágil equilíbrio entre as representações do eu e do outro. Só o homem é capaz de ferir o silêncio, aniquilar a escuridão, desacreditar do mistério, acelerar o tempo. Acima de tudo, somos indelicados com o tempo: desde o início da era industrial, o homem vem esgarçando este frágil e precioso tecido da existência. Por isso a delicadeza é uma conquista, um valor ético, um parâmetro estético.
Maria Rita Kehl é doutora em psicanálise pelo Departamento de Psicologia Clínica da PUC-SP.
A SEXUALIDADE VAI DESAPARECER? | MARCELA IACUB A sexualidade é uma categoria jurídica-política recente. Tanto que é só nos anos 1980 que entra para o vocabulário penal, embora, pouco a pouco, ao longo do século 20, já viesse se tornando uma espécie de ideologia de Estado, associada a um saber quase biológico. Uma vez que o Estado aos poucos abandona tal domínio, o tema hoje são as implicações disso, ou seja, desse horizonte a que se dá o nome de pós-sexualidade. Marcela Iacub é filósofa e socióloga.
ONDULAÇÕES PARANÓIDES | PASCAL DIBIE As ondulações paranóides de nossa época colocam em evidência as mutações profundas da nossa vida cotidiana. Vivemos o paradoxo de um acesso irrestrito ao conhecimento humano e, ao mesmo tempo, assistimos ao desaparecimento do nosso humanismo.
Pascal Dibie é professor de antropologia na Universidade Paris 7.
VIOLÊNCIA E SUBJETIVIDADE: A PSICANÁLISE E O SUJEITO PÓS-TRAUMÁTICO | SLAVOJ ZIZEK Contra a arquitetura metafísica erguida ao longo dos séculos, uma das possíveis soluções para nossa condição seria aceitar a finitude como horizonte último: não há verdade absoluta, e tudo o que podemos fazer é conviver com a contingência de nossa existência, ou seja, o inelutável caráter do nosso ser-arremessado no interior de uma situação em que não há pontos de referência – enfim, o lado divertido da tragédia.
Slavoj Zizek é filósofo e doutor em psicanálise.
A conferência de SLOVOJ ZIZEK no Rio será apresentada no dia 14 de outubro, às 20hs, no Teatro de Arena - Palácio Universitário da Praia Vermelha Avenida Pasteur, 250 - Urca - Forum de Ciência e Cultura. Às 18:40 haverá a exibição do documentário “Zizek”, dirigido por Astra Taylor (legendas em inglês) no Salão Pedro Calmon. Após a conferência, lançamento do livro de ZIZEK “A visão de Paralaxe” (Editora Boitempo).
MUTAÇÕES | MD MAGNO Do conceito de pulsão freudiana decorre o haver desejo de não-haver, ou seja, o desejo do impossível, que trata de quebrar a simetria do Originário e gerar pulsões que se fractalizam. É a tal percurso, repleto de avessos até a indiferenciação, que se dá o nome de Revirão. Assim também se move a cultura, através de cinco impérios: a mãe, o pai, o filho, o espírito e amém. Vivemos hoje a caótica passagem para quarto império.
MD Magno é psicanalista.
Por muito tempo a idéia de crise ressoou o seu sentido negativo, imagem do mundo que prefigura ameaçadoramente a catástrofe. Hoje ela é vivida por nós como uma situação histórica nova que requer outra compreensão, momento semântico que faz emergir o sentido criador contido na crise. Sabemos que é essa crise de modelos de compreensão estabelecidos no presente que traz a semeadura do tempo que está por vir. Mas será que não devemos abandonar a idéia de crise em favor de um conceito de mutações? Buscar responder essa questão foi o motivo fundamental da série de conferências realizada no ano passado para o Programa Cultura e Pensamento, um programa que o MinC vem afirmando nessa gestão desde 2005. O ciclo Mutações: “Novas configurações do mundo” abriu espaço para considerações tão interessantes quanto assustadoras, afirmando a necessidade dessa frase de força que cunhou Adauto Novaes: “Mutações: pois estaríamos passando de um estado de coisas para outro, sem que deste consigamos esboçar o real configurado em seu todo, pois estamos diante de uma imagem do mundo que ainda não é integralmente visível a ponto de receber nome próprio, mas já se mostra como mutante. Nossas figuras do mundo presente tem por vezes contornos caóticos, ou espelham um vazio: são impressões de um agora que está em plena atualização”. Mesmo sem que enxerguemos sua face ou indiquemos trilhas que o mapeiem, nos situamos nesse mundo sem que as vertentes do pensamento humanista sirvam de esteio para nossa visada. Quem dirá compreender, com alguma globalidade, o que acontece hoje? Mas podemos dizer que a marca desse novo tempo é impressa pela predominância da tecnociência, uma predominância de uma forma de inteligência dos dias correntes que reinveste o trabalho humano de outra força social e os homens de outros poderes. Essa nova paisagem antropológica descreve o cenário de tantos consensos que se formam em meio a nossa comunidade, algo que se faz, muitas vezes, à revelia da política ou produzindo alternativas sem conseqüências comuns; andamento que quase sempre não mede meios para alcançar seus fins. Isso fica claro quando perguntamo-nos: quem manipulará os códigos que delineiam o ser humano dos tempos atuais? Quem fará desse ser humano um tanto híbrido ou máquina o novo conceito estruturador de nossa vida em sociedade? Não é o caso de tentar frear tal processo, sabemos disso, algo que seria vão diante da força dos tempos e das incertezas que nos habitam. Nossa questão é como não deixar que esse deslocamento faça-se à revelia de nós mesmo, de nosso ser político. As conferências deste ano são um momento reflexivo que põe em questão a necessidade da voz do homem e do lugar da política na contemporaneidade. Perguntar pelo sentido da Condição humana é solicitar a fala de quem é capaz de reagir publicamente a um estado de coisas. Nossos desafios de hoje dão-se em termos mais práticos, são políticos em sentido pleno, conceitual e atual, fazendo a ordem da mobilização ter outras razões e dispositivos socioculturais. E isso é imprescindível frente às questões que o mundo nos formula com sua palavra própria. Hoje nos perguntamos constantemente: como regularemos o uso de células-tronco que, ao mesmo tempo, salvam vidas e reavivam teses eugênicas? Como lidar com o poder dos dispositivos de controle que nos dão estabilidade segura e nos anulam subjetivamente? Sem essas respostas nossa vida pública ruma à edificação dos novos panópticos que antevia Foucault. Nosso estado comum de dúvida é a face de uma indagação sobre a condição do humano que diz respeito a todos. Ela reverbera em cada um de nós e nos concerne como homens públicos. Hoje a idéia de cultura também é afetada por estas reconfigurações da vida comum, algo que afeta desde as subjetividades até as políticas nacionais. Assim para quem está diante de instituições culturais, cabe tratar de tudo um pouco, observando atentamente as mutações que atravessam sociedade e indivíduos e seus modos de cultivar valores. É isso que requer de nós uma nova visão de estado e autoridade pública que seja capaz de dar suporte a projeção de cenários, fazendo circular concepções filosóficas do que é o humano, tratar das dificuldades de identidades positivas e da diversificação de perspectivas de valor, do esgotamento das noções modernas de filosofia e história, dos novos estatutos da sexualidade e do trabalho, e assim por diante. O Ministério da Cultura afirma sua função pública nessa ocasião pondo-se à altura da contemporaneidade, missão que só é possível levar adiante através do esforço habitual da reflexão. O programa Cultura e Pensamento é nossa possibilidade de dar corpo às tantas esferas públicas que orbitam no espaço da sociedade atual.
JUCA FERREIRA Ministro da Cultura

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