Revista Travessias

REVISTA TRAVESSIAS

CHAMADA DE ARTIGOS

 

Na Assembleia de Encerramento do V Congresso Luso-Afro-Brasileiro em Ciências Sociais, realizado em 1998 na Universidade Eduardo Mondlane (Maputo, Moçambique), os congressistas ali reunidos decidiram pela criação de uma revista internacional, no campo das ciências sociais, representativa do trabalho de investigadores activos no assim chamado espaço lusófono. Decidiram, ainda, que a responsabilidade pela edição da revista – denominada TRAVESSIAS e com peridiocidade anual - seria rotativa, e às assembléias realizadas ao fim de cada Congresso caberiam as designações do editor e da instituição encarregada da tarefa, para os dois anos seguintes. Tais características constituem um veículo académico ímpar: a única publicação internacional no campo das ciências sociais que reflecte os resultados das aproximações entre as comunidades científicas dos países lusófonos.

Os primeiros números da revista TRAVESSIAS (1 e 2/3) foram editados pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, da Universidade Candido Mendes. Os números seguintes ( 4 e 5) foram editados em um único volume pelo Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa. O Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra, foi encarregado da edição dos números 6 e 7, e deverá lançá-los durante o X Congresso Luso-Afro-Brasileiro em Ciências Sociais, a ser realizado pelo Instituto de Ciências Sociais, da Universidade do Minho (Braga), em fevereiro de 2009. No momento, o Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, prepara, para lançamento no mesmo Congresso, os números 8 e 9.

O número 8 será constituído inteiramente de conferências e trabalhos apresentados na altura do IX Congresso Luso-Afro-Brasileiro em Ciências Sociais, organizado pela Universidade Agostinho Neto (Luanda, Angola).

Para o número 9, estamos a divulgar a presente chamada para artigos que devem ser remetidos para a redação da revista (travessias@iuperj.br), até o dia 31 de dezembro de 2009. A revista terá a tiragem de 500 exemplares e será também editada em formato electrónico. No sítio a ser criado para abrigar a revista TRAVESSIAS, constarão, ainda, todos os números já publicados.

 

 

INSTRUCÇÕES AOS COLABORADORES

 

1. TRAVESSIAS aceita trabalhos inéditos, sob forma de artigos e comentários de livros, sob forma de ensaios bibliográficos, em Ciências Sociais. Os trabalhos deverão ser de interesse académico e social, e escritos de forma inteligível ao leitor culto; os aspectos mais técnicos e especializados deverão limitar-se ao essencial.

2. A publicação dos trabalhos está condicionada a pareceres de membros do Conselho Editorial e de Avaliadores Ad Hoc — garantido o anonimato de autores e pareceristas no processo de avaliação. Eventuais sugestões de modificação de estructura ou conteúdo, por parte da Editoria, serão previamente acordadas com os autores. Não serão admitidos acréscimos ou modificações depois que os trabalhos forem entregues para composição.

3. Os artigos devem ser apresentados via e-mail (travessias@iuperj.br) acompanhados de resumos em torno de 250 palavras, em que fique clara uma síntese de propósitos, dos métodos empregados e das principais conclusões do trabalho, além de palavras-chave e dados sobre o autor (titulação académica, cargo que ocupa, áreas de interesse, últimas publicações etc.).

4. Os artigos deverão ter em torno de 30 laudas digitadas, escritas em Times New Roman, tamanho 12, espaço 1,5. O nome dos autores, acompanhado de grau de titulação e instituição em que actuam, deve constar na primeira página, separadamente do artigo.

5. As recensões (resenhas) devem versar sobre livros escritos nos últimos três anos. Devem ter entre 6 e 10 páginas, Times New Roman, tamanho 12, espaço 1,5.

6. Gráficos deverão ser acompanhados das respectivas planilhas que os originaram, com indicação das unidades em que se expressam os valores e as fontes correspondentes.

7. As notas deverão ser de natureza substantiva, restringindo-se a comentários adicionais ao texto. Referências bibliográficas, quando necessárias, deverão aparecer no próprio texto, com a menção do último sobrenome do autor, acompanhado do ano da publicação e do número da página, quando necessário (GIL, 1984:19). Ao final do artigo deverão ser listadas as referências bibliográficas, em ordem alfabética, com a observância dos seguintes critérios:

 

Para livro

Exemplo: GIL, Fernando. (1984), Mimésis e Negação. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Para artigo em revista

Exemplo: CRUZ E SILVA, Teresa. (2004), “Identidade Religiosa e construção da democracia em Moçambique: o caso da Igreja Metodista Unida de Moçambique”. TRAVESSIAS,  nº 4/5, pp. 223-235.

Para citação de artigo electrónico

Exemplo: BRANDÃO, Gildo Marçal. “Linhagens do Pensamento Político Brasileiro”. DADOS [online]. 2005, vol. 48, nº 1 [dia-mês-ano da consulta], pp. 231-269. Disponível na Internet: <http://www.scielo.br/dados>. ISSN 0011-5258 [páginas e ISSN facultativos].

7. Com a publicação do artigo ou recensão, o autor receberá cinco exemplares da revista.

8. Os trabalhos devem ser enviados, em extensão “.doc”, à:

Editoria de TRAVESSIAS

Iuperj

Rua da Matriz, 82 — Botafogo

22260-100 — Rio de Janeiro — RJ

Brasil

E-mail: travessias@iuperj.br ou rlessa@iuperj.br

 

Conselho Editorial para os números 8 e 9

Renato Lessa (Iuperj/UCAM e Universidade Federal Fluminense) – Editor Executivo

Cesar Barreiro (Universidade Federal do Ceará)

Francisco Carlos Martinho (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Peter Fry (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Sebastião Carlos Velasco e Cruz (Universidade Estadual de Campinas)

Sérgio Miceli (Universidade de São Paulo)

A coerência de Rousseau

A coerência de Rousseau
30/9/2008

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – No início da década de 1970, o filósofo Bento Prado Jr. (1937-2007) escreveu um longo ensaio no qual propunha uma interpretação original sobre a obra do pensador suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). O texto, que permaneceu inédito por mais de três décadas, chega agora ao público com o lançamento de A retórica de Rousseau e outros ensaios.

O livro resgata o texto inédito e outros oito publicados anteriormente em revistas acadêmicas. O lançamento será nesta terça-feira (30/9), às 19 horas, em São Paulo. O evento incluirá uma mesa-redonda com Franklin de Mattos, organizador do livro, Paulo Arantes e Ruy Fausto, todos professores do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com Mattos, a importância da obra reside em identificar, em uma análise notavelmente original, uma unidade na obra do filósofo suíço. “Para Bento Prado, a unidade do pensamento de Rousseau é dada pela teoria da linguagem, que foi exposta em seu texto sobre a origem das línguas. Esse texto, que não foi publicado em vida pelo suíço, é até hoje visto pela maioria dos comentadores como uma obra menor”, disse Mattos à Agência FAPESP.

Bento Prado Jr. mostra, segundo Mattos, que todo o pensamento de Rousseau é unificado por sua concepção retórica da linguagem. Ela permite compreender a coerência do filósofo europeu como autor de uma teoria política, escritor de teatro, romancista.

“Em sua concepção retórica da linguagem, Rousseau defende que a língua não existe para que possamos comunicar nossas idéias. Ela foi inventada para que possamos comover o outro”, disse Mattos.

Para Bento Prado Jr., a subjetividade se distingue, em Rousseau, pela expressão do sentimento. Para uma das principais figuras do Iluminismo, a comunicação verdadeira entre os sujeitos só se daria pela fala inspirada por sentimentos desinteressados, e não quando regida pela necessidade material, passível de cálculo.

“Enquanto os filósofos da época achavam que a linguagem expressava nossas necessidades físicas, ele dizia que ela expressava nossas paixões. Essa concepção retórica da linguagem, no fundo, é uma concepção política da linguagem, porque implica o outro”, afirmou.

Segundo Mattos, Bento Prado Jr. descobre no pensador suíço uma estratégia retórica que pressupõe a linguagem como parte de uma situação concreta na qual existe um reconhecimento mútuo entre aquele que fala e aqueles para quem se fala.

A comunicação intersubjetiva, segundo a interpretação de Bento Prado Jr., encontra um campo privilegiado na escrita literária. Por isso os escritos de Rousseau teriam transitado por diversos gêneros: a autobiografia filosófica em Confissões, a teoria política em Do contrato social, o ensaio pedagógico romanceado em Emílio ou o romance em A Nova Heloísa.

Para Mattos, o livro também tem o mérito de incluir, de forma subjacente, uma reflexão sobre a época em que foi escrito. “Um aspecto interessante é que ele consegue harmonizar dois paradigmas excludentes da década de 1960: lingüística e política. Ao abordar esses dois temas, colocando-os de certa forma em um mesmo plano, Bento Prado Jr. remete à década de 1960 naquilo que ela teve de mais duradouro”, destacou.

Impacto internacional

Segundo Mattos, o texto inédito se tornou uma espécie de lenda entre amigos e seguidores de Bento Prado Jr. O autor manifestou em várias ocasiões o desejo de publicá-lo. “Não sei dizer por que ele nunca foi impresso, sendo tão importante e original. Conversamos a respeito um pouco antes de sua morte e ele manifestou o desejo de publicar”, afirmou.

Mattos discorda que Bento Prado Jr. não dava importância à publicação de livros. “Alguns acham que ele era um tipo socrático, que privilegiava as formas de comunicação oral em detrimento da escrita. Isso é uma grande bobagem. A quantidade de textos que publicou é imensa”, afirmou.

O organizador do novo livro ressalta que o ensaio A retórica de Rousseau, escrito originalmente em francês, tem potencial para atravessar fronteiras. Os textos de Bento Prado Jr. sobre a filosofia de Henri Bergson (1859-1941), segundo ele, foram traduzidos para o francês em 2002 e se tornaram referência para os estudiosos de Bergson na Europa.

“A obra sobre Bergson também demorou cerca de 20 anos para ser publicada e se tornou referência internacional. Sem dúvida o livro sobre Rousseau poderá seguir o mesmo caminho. Na orelha, o presidente da Sociedade Rousseau de Genebra, Alain Grosrichard, já indica isso ao enaltecer a grande originalidade da interpretação de Bento Prado Jr.”, afirmou.

Para Mattos, o livro dá uma amostra da lacuna deixada na filosofia brasileira pela morte do autor, em 2007. Bento Prado Jr. participou nas bancas de doutorado, titularidade e livre-docência de Mattos na USP.

“Infelizmente não tive a oportunidade de ser aluno dele, pois quando entrei na faculdade, em 1969, ele foi aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional 5 e se exilou até 1974. Era um homem finíssimo, dono de um grande e irônico senso de humor. Faz muita falta para nós e para a filosofia”, disse.

The Philosophical Form of Scepticism in Politics

Montaigne’s and Bayle’s Variations: The Philosophical Form of Scepticism in Politics
Renato Lessa

It is impossible to exaggerate the importance of Richard Popkin in any reassessment of the role of scepticism in the configuration of modern philosophy. The fecundity of Popkin’s enterprise may be detected in the vast proliferation of questions that he has prompted. In fact, when re-established as a major philosophy, queries about scepticism may arise that are conventionally applied to philosophical traditions whose relevance has always been acknowledged as undisputed. A far from exhaustive listing might well include queries about the morality of scepticism, its anthropology, its attitude towards science, the possibilities of a sceptical aesthetics and, for the purposes of these reflections, its modes of perceiving politics and social life.
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Introdução ao pensamento estético

A quoi sert la répresentation? ou les formes de la distinction

A quoi sert la répresentation? ou les formes de la distinction
Renato Lessa

Une voix courante entre les politologues d’orientation institutionnaliste assure la santé et, pourquoi ne pas le dire, la vertu des mécanismes institutionnels qui configurent la démocratie au Brésil. La régularité électorale, la consolidation d’un système pluriel de partis politiques, fragmentaire mais fonctionnel, une logique législatif possédant de la rationalité en dépit de sa phénoménologie parfois bizarre et douteuse, et une corrélation puissante entre la compétitivité politique-électorale et l’acceptation universelle des règles du jeu, toutes ces dimensions, dans un mot, définiraient un ensemble d’évidences à propos de la consolidation, de la normalité et du plein fonctionnement des institutions politiques du pays.

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ceticismo e psicanálise

O ceticismo é uma filosofia das afinidades eletivas. Toda filosofia possui um núcleo cético, muito embora nem todas as filosofias sejam céticas. Mas ainda não foi pensada uma psicanálise cética. A psicanálise possui uma série de argumentos céticos, mas ainda não foi pensada, de modo sistemático, como podendo ser orientada para o ceticismo filosófico. Este ano o III Encontro Nacional de Pesquisadores em Filosofia e Psicanálise contará com a tentativa de pesquisadores do L(E)H em mostrar as fundações de elementos para se pensar a psicanálise desde o ceticismo. Levar a psicanálise para a política parece ser o caminho para essa questão.

A chamada de trabalhos:

III Encontro Nacional de Pesquisadores em Filosofia e Psicanálise

“Psicanálise e Sociedade”

Universidade Federal Fluminense - Universidade Federal do Rio de Janeiro

24 a 27 de novembro de 2008

Chamada para apresentação de papers

O Encontro Nacional de Pesquisadores em Filosofia e Psicanálise é um evento bienal. Este III Encontro, que acontecerá no Rio de Janeiro, na UFF e na UFRJ, será organizado pelo Departamento de Filosofia da UFF, pelo PPG em Teoria Psicanalítica da UFRJ, pelo PPG em Filosofia da USP, pelo PPG em Filosofia da UFSCar, pelo PPG em Psicologia da PUC-Unicamp, pelo Núcleo de Psicanálise, Discurso e Laço Social (UFF) e pelo Laboratório de Pesquisas em Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (USP). O evento conta ainda com o apoio do GT “Filosofia e Psicanálise” vinculado à ANPOF.

O III Encontro Nacional de Pesquisadores em Filosofia e Psicanálise terá mesas destinadas à apresentação de papers de professores, bem como de mestrandos e doutorandos que pesquisam na área. Tais papers devem dizer respeito a temas claramente inseridos no campo de reflexões que cobre o recurso filosófico à psicanálise. Cada apresentador terá 20 minutos de exposição mais 10 minutos de debate. Os interessados devem enviar um resumo de, no máximo, 2000 toques até o dia 15 de outubro de 2008 para analise@uff.vm.br . A lista dos papers aprovados será divulgada no dia 31 de outubro de 2008. O tema geral do Encontro este ano será “Psicanálise e Sociedade”.

Conferencistas confirmados:

Eran Dorfman (Israel)

Christian Hoffman (França)

Edgardo Gutiérrez (Argentina)

Anna Carolina Lo Bianco (UFRJ)

Antônio Teixeira (UFMG)

Claudia Murta (UFES)

Cláudio Oliveira (UFF)

Christian Dunker (USP)

Ernani Chaves (UFPA)

Fernanda Costa-Moura (UFRJ)

Francisco Bocca (PUC-PR)

Francisco Leonel Fernandes (UFF)

Gilson Iannini (UFOP)

Isabel Fortes (UFRJ)

Isleide Arruda Fontenelle (FGV-SP)

Joel Birman (UFRJ)

José Francisco Miguel Henriques Bairrão (USP-RP)

Leopoldo Fulgencio (PUC-Campinas)

Marcos José Müller-Granzotto (UFSC)

Paulo Vidal (UFF)

Regina Herzog (UFRJ)

Ricardo de Sá (UFF)

Richard Theisen Simanke (UFSCar)

Tania Rivera (UnB)

Vincenzo di Matteo (UFPE)

Vladimir Safatle (USP)

Walter Evangelista (UFMG)

Zeljko Loparic (Unicamp)

Comissão Organizadora:

Cláudio Oliveira (UFF) Richard Theisen Simanke (UFSCAR)

Joel Birman (UFRJ) Leopoldo Fulgencio (PUC-Campinas)

Vladimir Safatle (USP)

A filosofia da linguagem de Rousseau: Bento Prado Jr.

Não aparecem livros inéditos com muita facilidade. Ainda mais um inédito do saudoso Bento Prado Jr. Este não é qualquer inédito. É um inédito de Bento Prado Jr. Um inédito com uma tese bastante subversiva. A filosofia da linguagem de Rousseau como ponto central de sua filosofia política. O livro, cuja timidez de Bento Prado não permitiu publicar em vida, tem como título A Retórica de Rousseau e Outros ensaios. Porque sabemos há muito: diga a sua linguagem, que lhe direi a sua justiça.

História do Anonimato

O ceticismo tem uma história e faz uma história, uma história constituída por representações, idéias, e uma história produzida por representações, idéias. Não se pode dizer que o Eu cético seja excessivo, antes de tudo, o Eu do ceticismo é diaphônico. Este pequeno ensaio de Terry Eagleton, publicado domingo 7, no caderno Mais, da folha de São Paulo, explana algumas linhas sobre o despertencimento do Eu, e a sua existência. As associações com Montaigne são necessárias, sempre.

História do anonimato

TERRY EAGLETON

Todas as obras literárias são anônimas, mas algumas são mais anônimas que outras.
Faz parte da natureza de um texto escrito o fato de conseguir se manter sozinho, livre de seu progenitor, podendo dispensar a presença física deste (ou desta).
Nesse sentido, o texto escrito se assemelha mais a um adolescente que a um bebê.
Diferentemente da fala, a escrita é significado que se libertou de sua fonte. Alguns tipos de escrita -por exemplo, ingressos para o teatro ou bilhetes deixados para o leiteiro- estão mais intimamente vinculados a seus contextos originais do que “O Paraíso Perdido” [de John Milton] ou “Guerra e Paz” [de Leon Tolstói].
Pelo fato de ser imaginária, a ficção não possui nenhum contexto original na vida real e, hermeneuticamente falando, pode, portanto, circular muito mais livremente que uma lista de compras ou uma passagem de ônibus.
Não podemos simplesmente tirar Auschwitz de nossas cabeças quando assistimos a “O Mercador de Veneza” [de Shakespeare]. O significado pretendido pelo autor nem sempre passa por cima do significado atribuído pelo leitor.
Walter Benjamin acreditava que as obras literárias secretam certos significados que podem ser liberados apenas em sua pós-vida, quando elas passam a ser lidas em situações até então imprevisíveis. Ele pensava algo semelhante em relação à história em geral.
As possibilidades futuras de “Hamlet” são parte do significado da peça, embora seja possível que nunca cheguem a se realizar. Um dos maiores romances ingleses, a obra-prima do século 18 “Clarissa”, de Samuel Richardson, voltou a ser legível à luz do movimento feminista do século 20.
Expulsa de sua “casa” de origem, sem-teto e órfã, a escrita literária é obrigada a sobreviver de um dia para outro e, desse modo, possui uma semelhança curiosa com o pícaro ou o vagabundo errante que protagonizam tantos romances.
Um texto pode carregar a assinatura de um escritor específico sem realmente fazer parte da obra dele.
Por exemplo, nem todo texto que ostenta a assinatura de Karl Marx é necessariamente “marxista”. As intenções literárias que importam são embutidas na própria obra, um pouco como a estrutura de uma cadeira “pretende” que nos sentemos nela.
O eu remete a raízes insondavelmente anônimas. Homens e mulheres emergem como seres únicos por meio de um meio (quer o chamemos “geist”, história, linguagem, cultura ou o inconsciente) que é implacavelmente impessoal.
No próprio núcleo da personalidade, nos diz a era moderna, estão em ação processos anônimos. Apenas por meio de uma salutar repressão ou do ignorar dessas forças é que podemos conquistar a ilusão da autonomia. O anonimato é a condição da identidade.
É essa doutrina intransigente que o modernismo vai herdar, à medida que a impessoalidade assume o lugar do ego romântico, que já vai tarde.
Para uma vertente do modernismo, o eu é deslocado pelas próprias forças que o constituem -ele é desalojado, retirado de sua casca, descentrado e despossuído.
Não somos nada mais que os portadores anônimos do mito, da tradição, da linguagem ou da história literária. O único modo por meio do qual o eu pode deixar sua impressão digital distintiva, desde Flaubert até Joyce, é no estilo meticulosamente distanciador no qual ele se mascara.
A linguagem, propriamente dita, pode ser destituída de autor, mas o estilo, como afirma Roland Barthes em “O Grau Zero da Escrita” [Martins Fontes], mergulha diretamente nas profundezas viscerais do eu.
Outra vertente do modernismo retorna à própria subjetividade, como se a título de refúgio. O eu pode ser inconstante e fragmentário, mas existe algo em que podemos confiar: no imediatismo de suas sensações.
E, embora a essência do eu como condição hoje seja impalpável, existem certos momentos raros em que ela pode ser momentaneamente recapturada. Já o pós-modernismo, em contraste, ensaia o conto modernista do eu desalojado e descentrado, mas sem as consolações de um eu essencial.
“Anonymity - A Secret History of English Literature” [Anonimato - Uma História Secreta da Literatura Inglesa, ed. Faber and Faber, 224 págs., 17,99, R$ 57], de John Mullan, está longe de tecer tais reflexões grandiosas.
Trata-se de uma história do anonimato literário do século 19 até o presente e, sabiamente, se recusa a fazer uma grande narrativa de seu tema, com o argumento de que os motivos de tal anonimato são demasiado diversos.
Alguns autores são tímidos demais para enfrentar a publicidade, alguns são demasiado chulos, alguns exploram seu status de anonimato pela simples brincadeira, enquanto outros usam o anonimato como maneira perversa de provocar curiosidade.
Anthony Trollope recorria ao anonimato porque escrevia demasiado rápido e era sensível a acusações de produção excessiva. Anthony Burgess publicou anonimamente pela mesma razão, ou quase.
Ele também foi o resenhista não declarado de um de seus próprios romances, no “Yorkshire Post”. “Elegy” [Elegia], de Thomas Gray, o poema mais freqüentemente reimpresso da Inglaterra do século 18, foi publicado anonimamente.
Com modéstia decorosa, “Razão e Sensibilidade” foi assinado “por uma dama”, uma descrição bastante comum na época. Durante a vida da autora, nenhum dos outros romances de Austen foi publicado com seu nome.

Disfarces
Walter Scott publicou seus romances “Waverley” (os mais populares já vistos na Grã-Bretanha) sem, durante muitos anos, admitir sua autoria.
Os editores dos séculos 17 e 18 amiúde publicavam livros cuja autoria real era desconhecida até mesmo deles. Manuscritos freqüentemente eram deixados nas editoras no meio da noite, por intermediários disfarçados.
Havia também o “cross-dressing” autoral, mais normalmente de mulheres para homens que vice-versa. “Exemplos de mulheres que escolheram pseudônimos masculinos são múltiplos”, observa Mullan, “mas é muito mais raro encontrar homens se assinando com nomes de mulheres”.
Duas exceções notáveis foram Daniel Defoe e Samuel Richardson, que se refugiaram por trás de suas protagonistas mulheres.
As irmãs Brontë são um exemplo evidente de escritoras fazendo-se passar por escritores ou, pelo menos, ocultando-se atrás dos pseudônimos cuidadosamente andróginos de Currer, Ellis e Acton Bell.
Houve épocas em que o Estado precisava saber quem era o autor ou o impressor de uma obra para saber a quem processar por heresia ou sedição.
Em 1579, John Stubbs teve a mão direita decepada por escrever um texto opondo-se ao casamento de Elizabeth 1ª com um aristocrata francês. A própria Elizabeth recomendou que os impressores dos libelos anti-anglicanos “Marprelate” fossem submetidos à tortura.
Em 1663, um gráfico de Londres que publicou um folheto argumentando que o monarca deveria ter que responder a seus súditos e justificando o direito da população à rebelião foi sentenciado à forca e ao esquartejamento.
Mesmo assim, recusou-se a revelar o nome do autor do panfleto, embora a revelação pudesse ter salvo sua vida.
Entre os séculos 16 e 18, gráficos foram multados, encarcerados e colocados no pelourinho por publicar obras supostamente traiçoeiras cujos autores permaneciam ocultos. Ser o impressor de Jonathan Swift não era trabalho para covardes.
Destemido, John Locke inscreveu seu nome na página-título de seu “Ensaio Sobre o Entendimento Humano”, mas deu-se a enorme trabalho para preservar o anonimato de suas obras mais políticas.

Espancamentos
Outros atos de violência eram menos oficiais.
John Dryden foi espancado após deixar uma taberna devido a um poema anônimo atribuído a sua pena. William Blackwood, proprietário da “Blackwood’s Magazine”, foi açoitado em pelo menos duas ocasiões pelas vítimas de resenhas belicosas, e não assinadas, de seus colaboradores. O anonimato proporcionava não só perigo, mas também benefícios. Tobias Smollett foi quase certamente o autor de uma resenha elogiosa, não assinada, de seu próprio “Complete History of England” [História Completa da Inglaterra]. John Wilson escreveu uma carta anônima ao “Blackwood’s Magazine” defendendo Wordsworth de críticas não assinadas publicadas numa edição anterior do periódico e escritas por ele próprio.
Mesmo George Eliot, conhecida por pautar-se por seus altos princípios, escreveu resenhas anônimas da biografia de Goethe escrita por seu companheiro G.H. Lewes -a quem ela ajudara a escrever a obra.
Nem todos desaprovavam tais práticas. Stanley Morrison, que editou o “Times Litterary Supplement” nos anos 1940, declarava que a auto-resenha era o exemplo ideal do gênero.
Vindo de quem comandava um periódico inteiramente dedicado a colaborações anônimas, o comentário era perigoso.
Mullan encontrou um tema fascinante que ele trata com erudição e lucidez.
Mas falta ao livro o brilho instigante de suas melhores resenhas, e topamos com ocasionais trechos repetitivos ou cansativos. Há um epílogo absurdamente breve sobre os autores anônimos na era moderna, quando eles ou elas foram demasiado eclipsados pelos departamentos de publicidade de suas editoras.
Mesmo assim, há muito a ser apreciado. O livro parece ser voltado a um público amplo e com certeza representa uma tentativa louvável de fazer uma ponte entre a erudição literária e o leitor comum.

TERRY EAGLETON é professor de literatura inglesa na Universidade de Manchester e é autor de “Depois da Teoria” (Civilização Brasileira), entre outros livros. A íntegra deste texto foi publicada no “London Review of Books”. Tradução de Clara Allain.

Revista Sképsis

Revista Sképsis

O grupo de trabalho, História do Ceticismo, da ANPOF, criou um importante periódico para reunir as publicações acerca das temáticas do ceticismo. O periódico publica traduções, ensaios e resenhas. E, como abriga conjunto de céticos, não poderia deixar de contemplar artigos, cuja reverberação, invoca acaloradas discussões. Pode-se dizer, desde antes, que os debates travados, nas páginas da Revista Sképsis, serão estudados como os grandes debates da filosofia feita em português. Reproduzo as linhas de apresentação do periódico. Peço a leitura diária!

“Esta revista é um antigo projeto de Oswaldo Porchat. Há muitos anos, Porchat pensara em criar a Sképsis, revista ou coleção cuja finalidade seria reunir e veicular a produção filosófica sobre o ceticismo, tanto brasileira, como estrangeira. A seu ver, já havia, no Brasil, inúmeros trabalhos de boa qualidade sobre o tema, mas dispersos, e seria interessante traduzir alguns dos artigos estrangeiros importantes para que interessados no assunto pudessem conhecer as interpretações mais relevantes desde a redescoberta do ceticismo. Esse projeto nunca foi abandonado, mas não tinha sido levado adiante. Com o passar do tempo, as razões invocadas por Porchat somente ganharam força, já que o grupo de filósofos interessados no ceticismo cresceu muito e as pesquisas se tornaram cada vez mais especializadas. Assim, conforme as pesquisas brasileiras sobre o ceticismo foram se avolumando, a idéia de uma revista que reunisse os estudos antigos mais significativos, dando, ao mesmo tempo, vazão às produções recentes, deixou de ser um desejo pessoal e se impôs paulatinamente como uma espécie de necessidade coletiva.

A Sképsis é uma revista interinstitucional ligada ao GT-Ceticismo da ANPOF, um grupo de filósofos pertencentes a diversas universidades e regiões do país, com alguma inserção internacional e colaboradores estrangeiros. Esse grupo se reúne regularmente há mais de duas décadas em colóquios e outras formas de encontro. Faz parte de sua prática filosófica a exposição dos resultados parciais aos demais pesquisadores, a discussão aberta e sistemática de todas as idéias propostas, a submissão das hipóteses interpretativas e dos argumentos filosóficos à crítica dos colegas e amigos. O resultado natural desses debates exaustivos é uma produção em que as mútuas referências são constantes, mesmo quando não são explicitadas. Nesse sentido, a Sképsis é expressão da concepção de filosofia praticada por esses filósofos, cujas características principais são a abertura para o debate crítico e racional e a investigação constante, tanto das posições céticas, como daquelas que são franca e explicitamente contrárias ao ceticismo. Por isso, convida todos aqueles que gostariam de integrar esse amplo debate sobre as questões e os desafios céticos, bem como sobre as respostas que lhes foram dadas e as teorias que se lhes opuseram, a submeterem seus artigos para publicação”.

 Os Editores

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